quinta-feira, 1 de novembro de 2007

O jornal

A história do jornal começa, no Ocidente, com a Acta Diurna criada pelo imperador Julio César, no ano 59 antes da era cristã, para informar aos cidadãos sobre os acontecimentos políticos, sociais, escândalos, julgamentos e execuções. As Actas eram escritas em grandes placas brancas e expostas em locais públicos, como as termas de Caracala, a fim de dar ciência ao povo sobre os fatos da vida romana.
No Renascimento, em 1556, o governo de Veneza, publicou a Notizie Scritte, que custava uma moeda denominada “gazzeta”. Talvez uma forma de dar apenas uma versão aos fatos da vida renascentista.
Danton, um dos formuladores da Revolução Francesa, imprimia folhas com conteúdos revolucionários e as colava nas paredes dos prédios de Paris.
Originada na palavra francesa “jour”, que significa dia, nascia o “journal” diário.
Com o surgimento do estado moderno (1789), dividindo o poder político em três funções: executiva, legislativa e judiciária, a imprensa teria uma função primordial de fiscalização dos atos do governo, tornando-se um poder paralelo ao poder do estado. Até hoje é assim.
A imprensa tem em sua essência um poder político fundamental à organização social. Não é licito, contudo, confundir o poder político intrínseco com política partidária. Exatamente aí nasce a liberdade de imprensa, quando ela não confunde o seu conteúdo político com a expressão partidária.
No recém vivido século XX, a imprensa evoluiu para outras formas de comunicação, incorporando o rádio e a televisão ao seu arsenal de divulgação dos fatos interessantes à vida social. No início deste terceiro milênio, a Internet passa a ser mais uma forma de noticiar.
A explosão populacional e a expansão do mercado, acontecidas nos últimos cinqüenta anos, induzem às grandes tiragens e, consequentemente, ao jornal de ampla circulação. Os jornais, então, passam a vender mercadorias e serviços diversos, além das notícias.
Entretanto, recentes estudos apontam à diminuição do número de leitores destes veículos de circulação nacional. De um lado pelo avanço das novas mídias, especialmente a televisão e a Internet, e de outro, pela distância crescente entre os fatos acontecidos nas diversas comunidades da aldeia global e a publicação de assuntos nacionais ou internacionais.
O jornal de grande circulação se afasta do cotidiano da polis.
Coincidentemente ao nascimento do partido verde alemão, com seu conhecido lema: Think global, act local – pensar global, agir local – surgem os jornais regionais com a mesma finalidade.
O jornal regional também divulga os acontecimentos nacionais e internacionais, mas, principalmente, retrata os fatos da vida regional. Ele está mais próximo do cidadão, ele abre espaços para as opiniões locais, ele enfrenta e fiscaliza os poderes municipais. Ele é o reflexo político da vida das vilas. Os jornais regionais garantem a liberdade de expressão de seus leitores e funcionam como promotores da legalidade republicana por onde circulam.
Por isto, terão vida longa.

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

O tempo e o nada

A nossa percepção do tempo é cada vez mais instantânea. A fartura tecnológica dos anos mais recentes coincide com a vitória do regime capitalista sobre as alternativas socialistas. O mercado e a tecnologia são parceiros inseparáveis e se multiplicam incansavelmente. Um supera ao outro constantemente. Inventam-se o CD e o DVD, por exemplo, para em seguida surgirem indústrias “piratas” oferecendo os mesmos produtos por preços cada vez menores. Não há limites para o desenvolvimento tecnológico. Assim como não há fronteiras, internas ou externas, para as ações do mercado. O comércio mundial de armas e de drogas entorpecentes prova a afirmação.
O fenômeno da urbanização no planeta acontece a partir da segunda metade século XX, especialmente provocado pela explosão populacional.
Nos Estados Unidos da América ele decorre dos avanços tecnológicos introduzidos no campo, deslocando para as cidades massas de recém desocupados que procuram ser novos empreendedores. Na América Central e do Sul porque o campo não conseguiu abrigar aos que precisavam dele. Na Europa, a urbanização é menos violenta, pois a atividade agrícola é mais antiga e, consequentemente, melhor integra a tradição do homem europeu. Na Ásia, especialmente na Índia e na China, suas populações estão espalhadas pelos respectivos territórios. As concentrações urbanas de Pequim, Xangai, Nova Delhi ou Mumbai decorrem da ilusão de que nas cidades grandes haverá trabalho para os que dele necessitam. Bangalore, na província de Karnataka, no sul da Índia, é a mais recente ilha de prosperidade daquele povo que passou do artesanato para a cibernética sem conhecer os mecanismos da chamada revolução industrial.
O mercado e a tecnologia impõem à humanidade a pressa, mola mestra da competição. A velocidade das comunicações transforma a percepção de todos nós. Alguns estudos mostram que os jornais impressos perdem leitores para outras mídias, entre elas a televisão e a Internet.
As pessoas pensam que não têm mais tempo disponível para o estudo, a informação e a reflexão. São induzidas pelas mídias eletrônicas a sintetizarem sua compreensão sobre o mundo e sobre suas vidas. Ao mercado e a tecnologia não interessam comportamentos reflexivos.
A reflexão em larga escala pode contribuir para uma reavaliação na aquisição de vários produtos. Quantos não deixariam de trocar seus aparelhos de telefonia celular anualmente? Quantos não esperariam mais anos para substituir o automóvel da garagem? Quantos não usariam suas roupas por um tempo mais longo? Quantos não recuperariam seus móveis e outros utensílios domésticos legando-os aos seus sucessores? Quantos não freariam suas compulsões de consumo?
Uma das contradições da globalização é esta: Não há mais tempo para o nada. Não fazer significa não existir. Não consumir significa não ser. O mercado global impõe a todos nós um constante mercadejar. Temos que comprar ou vender alguma coisa diariamente, até para poder sobreviver.
Não é admissível socialmente passar algum tempo sem consumir. Primeiro porque denota incapacidade financeira, segundo porque denota ausência.
É como se o tempo e o nada não integrassem o espectro humano...

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

A teoria de Luzerna

A teoria de Luzerna foi concebida na década de oitenta do século XX. Ela é uma reformulação da teoria de Thomas Malthus, conhecida a partir de 1798, onde o confronto entre crescimento populacional e a produção de alimentos se estabeleceu, do ponto de vista teórico, pela primeira vez.
Agora, no inicio do século XXI, é preciso considerar outras variáveis. São quatro: o tamanho do planeta Terra, a explosão populacional, a utilização dos recursos naturais e, finalmente, a geração de todas as formas de lixo ou poluição.
A primeira variável, a Terra, é fixa. Ela não se expande, permanece constante em seu tamanho.
A segunda variável, a população, é crescente. Somente nos últimos cinqüenta anos triplicamos o número de habitantes do planeta, chegando aos 6,7 bilhões de pessoas.
A terceira variável, os recursos naturais, é decrescente na medida em que são utilizados para atender à demanda da população mundial.
A quarta variável, o lixo, é também crescente, pois, resulta do consumo de todos os produtos utilizados pelos seres humanos.
Este quadro, a continuar neste passo, é estrangulador.
Sabemos que dos recursos naturais existentes, os únicos renováveis, são as florestas e os animais, portanto, flora e fauna. Todas as outras jazidas naturais são finitas. A água potável também, ainda que reciclada natural e constantemente sob a forma de evaporação e chuvas.
Sabemos, também, que as leis da termodinâmica ensinam que toda energia do planeta é constante e que não pode ser criada, mas, apenas transformada de um estado para outro. O sol, os ventos, a força das águas, o carvão, o petróleo e o urânio, por exemplo, são formas energéticas que se transformam em outras, como energia solar, eólica, hidráulica, termoelétrica, combustível e nuclear. A segunda lei ensina que toda energia encontra-se em estado de baixa entropia, e uma vez utilizada, dissipa-se para um estado de alta entropia. E nesta dissipação perde-se energia.
Não bastassem estes fatores, temos ainda que considerar a ação do mercado, instituição econômico-financeira global, que atua como um fomentador do consumo de bens e produtos e a necessidade de geração de trabalho e renda para nós, seres humanos.
A teoria de Luzerna insinua que a sobrevivência do planeta, das espécies animais e florais e dos humanos só encontrará salvação pela alteração dos vetores de três das variáveis acima enumeradas.
Há que se reverter o crescimento populacional em alguns países, há que se praticar todas as formas de repovoamento de fauna e flora e há que se reciclar todas os materiais possíveis.
Estamos próximos da exaustão global, não temos conseguido gerar trabalho para todos e, simultaneamente, manter a sanidade ambiental para os habitantes da Terra. Eis a questão.

terça-feira, 25 de setembro de 2007

O sentido da existência

Supridas ou não as necessidades materiais, todos procuramos um sentido para a existência. Alguns o encontram na construção da riqueza, outros no exercício da caridade, no amor ou até mesmo na criminalidade. Em alguns casos, em mais de uma dimensão, simultaneamente. Afinal, o ser humano é holístico.
O peso da existência é, sem dúvida, o fardo maior de cada ser humano. Encontrar seu sentido, em contrapartida, é experimentar a maior das alegrias: o alívio de viver. Porém, somente no exercício do trabalho, nós podemos encontrar este sentido necessário e vital.
Paradoxalmente, vivemos na era pós-industrial um retrocesso moral e ético sobre o sentido de nossas existências.
Do ponto de vista ambiental somos uma população crescente que degrada o meio ambiente ao invés de usufruí-lo adequadamente. As grandes cidades, produtos resultantes da revolução industrial, são cânceres urbanos sem possibilidade de cura. Bolsões de pobreza e de criminalidade nelas incrustados são fenômenos irreversíveis na chamada evolução humana.
Do ponto de vista da ocupação remunerada, o trabalho, temos sido incompetentes para abrigar todos os que precisam garantir a sobrevivência.

Natureza e trabalho são, portanto, as duas grandes preocupações do século XXI.

Não podemos, ainda, dizer que sem equacionar estas duas variáveis teremos um planeta inviável. Não conhecemos nossa capacidade de suportar ambientes insanos e massas de desempregados, tirando uns dos outros, espaços saneados e bens de sobrevivência, entre eles, a água potável.
Sabemos, porém, que o sentido de nossa existência está inexoravelmente lastreado no trabalho e sanidade ambiental.

A solução para este impasse talvez possa surgir do reordenamento moral e ético das pequenas cidades, que incorporariam os recursos da tecnologia mais atualizada e reconstruiriam, pelo exercício da política, um cenário de absorção para todos os que têm o direito de trabalhar.
Mais do que as religiões que são formas de compreensão do fenômeno humano, de aceitação da dor e de abnegação, o trabalho é a fonte da libertação, do desenvolvimento emocional e da união entre os homens. Somente o trabalho organiza e mantém a sociedade.

Depois de aproximadamente 10 mil anos de sobrevivência baseada na agricultura, 200 anos apenas de revolução industrial, parece ter chegada hora da revolução ambiental. Com ela a humanidade encontraria trabalho para todos e curaria a Terra de suas chagas. Conseguiríamos, duplamente, dar um sentido às nossas existências.

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Passando a régua

A votação que absolveu o senador Renan Calheiros das acusações escancaradas pela imprensa nacional tem um tempero especial na história da recente democracia brasileira, reabilitada em 1989, após o golpe militar de 1964. Indica que o Brasil ainda é um país muito corrupto, especialmente na constituição de sua classe política.
Embalados pela necessidade de ascensão social, na maioria dos casos, nossos representantes vêem na atividade política uma forma de enriquecimento rápido.
De outro lado, aqueles que são herdeiros de patrimônios políticos se corrompem para garantir a manutenção e a transmissão do poder aos seus sucessores.
Outros que chegaram ao poder em nome da decência e da transparência, agora envergonhados, admitem pela omissão ou pela abstenção que não estão convencidos da culpabilidade do senador alagoano.
Ora, o julgamento do plenário do Senado da República não era um julgamento baseados nos códigos constitutivos da ciência do Direito. Tratava-se de um julgamento político. O que estava em discussão era a conduta política do senador e não suas atitudes pessoais julgadas sob a ótica do direito civil ou penal. O plenário votou por sua absolvição porque a maioria de seus membros está acorrentada às práticas de corrupção.
Não bastam os honorários, as facilidades operacionais intrínsecas aos seus gabinetes de trabalho, suas assessorias de livre nomeação e, sequer, o valor da honra do cargo mais nobre da República.
Um senador é um guardião dos interesses da pátria e de seus cidadãos.
O que aconteceu em 12 de setembro de 2007 é mais uma mancha na história da política brasileira. O exemplo dado, sobretudo aos mais jovens, é o de que não vale a pena acreditar na decência, na retidão, na ética e na honra.
Mas, o pior desta lamentável votação é a postura de partidos que fizeram parte da redemocratização nacional, após 1979, quando ocorreu a anistia no Brasil.
O PMDB e o PT foram dois dos partidos que empolgaram multidões fazendo crer na possibilidade de uma vida institucional estável, de práticas políticas mais dignas e da recuperação do sentimento de justiça e honestidade entre os brasileiros.
A eleição presidencial de 1989, aquela em que Fernando Collor derrota um líder sindical, coincide com a queda do muro de Berlin e, consequentemente com a vitória do mercado sobre o estado. Os atuais democratas, sucessores travestidos dos liberais, são hoje esmagados pelas mesmas práticas corruptas que no passado recente tanto indignava os atuais donos do poder.
A política nacional, hoje, é um balcão de negócios menos ético do que os balcões dos armazéns anteriores à globalização. Sendo que estes existiam para praticar atos de comércio, enquanto ela deveria existir para construir um país mais decente e capaz de melhorar a vida de seus cidadãos.
A política também foi engolida pelo mercado. E o mercado não tem responsabilidades com os cidadãos. Apenas, quando tem, com os consumidores.