terça-feira, 7 de outubro de 2008

A lógica da crise

No inicio da década de 80, algumas vozes em Washington, sussurram ao poder republicano que estava na hora de desregulamentar a economia. Quanto mais liberalizada ela estivesse, mais riqueza produziria. O mercado saberia guiar a humanidade. O Estado estava ultrapassado e obsoleto. A iniciativa privada, ágil por natureza, acreditou na tese. Começou, então, a montagem de uma grande engrenagem de mercados futuros e títulos derivativos, cuja finitude se perdia no horizonte. Quando começou a emperrar, quebrando alguns bancos depositários destas maravilhosas incertezas, o velho e criticado Estado foi chamado, às pressas, para depositar U$ 850 bilhões no sistema, a fim de dar tranqüilidade ao capitalismo do século 21.
Esta crise passará por que é, ainda, apenas financeira.
A verdadeira crise, em plena formação, aparecerá um pouco mais à frente. Quando nos dermos conta de que: (1) o planeta em que vivemos não cresce em tamanho, (2) a população mundial continua crescente, (3) o estoque dos recursos naturais é decrescente e (4) a poluição continua a crescer. Ou seja, haverá limites físicos para a expansão da produção, caso continuemos neste ritmo.
Diz-se que a iniciativa privada é mais eficiente do que o Estado. Ela é apenas mais ágil, inclusive nas formas de corromper...
Quando a situação estrangula e o pânico se instala, é sempre ao velho e carcomido Estado que se vai pedir ajuda. Por uma razão muito simples: ele é a maior conquista da civilização desde 1789...

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

O Futuro da Humanidade

O declínio e a queda do império romano começam exatamente quando os imperadores deixam de se submeter às decisões do senado. Este representava a vontade colegiada, temperada pelas diversas tendências e opiniões, enquanto aqueles representavam suas vaidades, sonhos e alucinações. O senado era o estado. O imperador era o indivíduo. E quando a vontade individual se sobrepôs à vontade coletiva, o império ruiu.
Então, o ocidente viveu o feudalismo, a chamada idade das trevas, o renascimento e a descoberta do novo mundo, através das grandes navegações, para se reorganizar e recriar o conceito político de república, dando origem ao estado moderno de 1789. Ele durou apenas duzentos anos. Em 1989, a queda do muro de Berlim, significa historicamente, mais uma vez, a ruptura do poder coletivo sobre a vontade individual. O mercado, a livre iniciativa, o desejo pessoal, a liberdade individual e o egoísmo são manifestações imperiais.
A exaustão, sob várias formas, por que passa a Terra é um sintoma do caráter imperial da sociedade global.
Ou entendemos que o planeta é um ser vivo e como tal merece os cuidados inerentes à vida, ou chegaremos ao caos para renascer.
Qualquer ideologia centrada no mercado aposta em ganhos e enquanto alguns ganham, e sempre tem alguém ganhando, as soluções coletivas vão sendo postergadas. Quem ganha vai se protegendo das situações de miséria e desconforto ambiental. É um movimento contínuo, uma rosca sem fim.
O apelo ambiental é tão forte neste início do século XXI que várias corporações já se apropriaram dele para dinamizar seus negócios.
Ouso dizer que o desenvolvimento da tecnologia informática já é uma forma de preparação para uma vida virtual, digital e distante dos cenários naturais. A expansão dos desejos individuais sobre a apropriação dos bens públicos, significa a possibilidade de aumentarmos a tragédia dos comuns, onde cada um explorará o mais rápido possível o que puder sob pena de que o outro o faça antecipadamente.
Não se trata de negar o avanço tecnológico, tampouco a liberdade para empreender. Ao contrário, reguladas pelo estado, todas as iniciativas individuais devem florescer. Elas significam a expressão do homem na sua mais perfeita forma.
No entanto o que estamos assistindo é a consolidação imperial do mercado sobre a vida de todos nós, onde os que não tem dinheiro ficam alijados de qualquer possibilidade de defesa. O mercado não considera os incapazes financeiramente.
Assim, estamos permitindo a construção de um complexo sistema econômico em que são oferecidas as últimas maravilhas aos que podem comprar e a degradação resultante aos que não podem pagar.
O estado foi concebido para garantir o equilíbrio entre os cidadãos. O mercado, por sua vez, sobreviveu porque não tem compaixão.

domingo, 23 de dezembro de 2007

Mercado, progresso e fé.

O Papa Bento XVI publicou a segunda encíclica de seu pontificado: Spe salvi. Nela, entre outras coisas, levanta algumas questões que permeiam a vida no século XXI. Fala que o homem substituiu a “fé em Jesus Cristo” pela “fé no progresso”. Condena o marxismo, pois ele esqueceu do homem e de sua liberdade. Argumenta que o materialismo é o erro da teoria marxista, pois o homem não é só produto de condições econômicas e nem se pode curá-lo, do exterior, criando as condições materiais favoráveis.
E diz: “Se ao progresso técnico não corresponde um progresso na formação ética do homem, no crescimento do homem interior, então aquele não é um progresso, mas uma ameaça para o homem e para o mundo”.
Nenhum reparo às suas afirmações.
O que as religiões não conseguem equacionar é o trinômio: mercado, progresso e fé.
A fé é a força interior que nos faz seguir, superar as dificuldades de qualquer natureza, ter esperança numa vida melhor e resistir aos infortúnios com resignação e humildade.
O progresso, independentemente de definição filosófica ou semântica, é o avanço contínuo da humanidade sobre o planeta.
E o mercado, a chamada mão invisível de Deus, no dizer de Adam Smith, é a força econômica que estrutura mais do que nunca, as ações humanas na era da globalização.
É o mercado que compra sentenças judiciais, que facilita a entrada de drogas e regalias em presídios, que fomenta o jogo e a prostituição, que regula salários, que desemprega e ao fazê-lo aniquila famílias, que gera a ganância, que corrompe estruturas políticas, que até negocia a liberdade.
Qual então o freio às ações do mercado? Como delimitar suas ações?
A construção de uma ética universal seria a resposta. E, neste caso, as religiões seriam forças auxiliares e fundamentais no exercício. Mas, para algumas religiões, legitimar a força do mercado é parte intrínseca ao credo.
As deformações cívicas dos tempos atuais, sobretudo no que se refere ao desemprego, à violência em suas variadas formas e a poluição ambiental são resultantes das forças de mercado. Como resistir aos apelos da propaganda que mostra corpos esculturais vendendo diversos produtos e norteia comportamentos desejáveis? Como educar e construir uma ética num mundo cuja função primordial tem sido estimular o consumo constante e crescente?
São estas questões que ocupam as mentes de certos economistas, filósofos, religiosos, educadores, cientistas e, até, políticos.
Não temos encontrado o ponto de equilíbrio entre crescimento e melhoramento das condições de vida.
Não temos conseguido subordinar o mercado a uma ética de solidariedade.
Talvez um susto de proporções planetárias obrigue a uma revisão total de nossa caminhada. Talvez a exaustão dos recursos naturais, talvez a exaustão do progresso. Talvez a renovação da fé.

domingo, 9 de dezembro de 2007

Distanciamento humano

A inegável praticidade e a velocidade da comunicação pela utilização da Internet, o lado positivo da tecnologia, provoca também um distanciamento nas relações humanas. Sobretudo entre os internautas. As crianças, especialmente, aprendem a viver num mundo virtual onde o contato físico e a percepção dos sentidos básicos, sobretudo o tato, a fala e o olfato, são substituídos por palavras compactadas, imagens, símbolos e cores das fantásticas janelas dos computadores.

O ser humano tem uma grande capacidade de adaptação e por isto, talvez, consiga suportar a evolução.

As sensações e as formas de expressão, inclusive a escrita, passam por transformações que ainda não podemos aquilatar.

Nas relações comerciais e profissionais em geral, além das facilidades da informática, percebemos um esfriamento nas trocas pessoais.

A crescente informatização das atividades humanas cria um novo controle, às vezes fatal, sobre o homem. Ou estamos no sistema ou fora dele.

Quando somos cadastrados em algum índex indevidamente, é necessário muito trabalho e paciência para tentar sair dele.

A autonomia humana vai diminuindo na medida em que gestores de inúmeros processos só podem autorizar operações previamente programadas pelo sistema.

Em diversas circunstâncias, muitos de nós já ouvimos a resposta terminativa: Lamento, mas o sistema não aceita. Ou, ainda, o sistema caiu.

E assim, a mercê do estéril sistema tornamo-nos números e senhas de um processo infindável de despersonalização.

Há casos absurdos em que o indivíduo apresenta-se ao vivo para qualquer operador de um sistema e, ainda assim, tem que provar com números ou senhas que ele é ele. O sistema não reconhece a persona. Apenas a personagem.

Não duvido que chegue o dia em que determinada pessoa precisando de socorro ou ajuda qualquer, e, por não estar cadastrada num sistema, não existirá. Consequentemente padecerá em seu infortúnio.

O afastamento do homem em relação à Natureza faz parte deste projeto digital onde o natural é substituído pelo artificial com enorme maestria.

Talvez o computador faça parte, inconsciente, da aceitação de uma artificialidade necessária à superação do processo de despersonalização por que passa a humanidade no início do século XXI.

Talvez os chamados excluídos digitais sejam, um dia, reconhecidos como não humanos, e, portanto, destituídos dos cuidados inerentes à vida.

Talvez, no futuro, o sistema não aceite os sem senhas...

terça-feira, 13 de novembro de 2007

S P Q R

Senatus Popolus Que Romanus representado pelas quatro letras do título deste artigo, e ainda hoje, gravadas em vários prédios públicos e nas tampas dos bueiros da capital italiana, resistem ao tempo e eternizam a glória das instituições daquele povo.

O Senado Romano era o símbolo do poder e a instância máxima entre os homens e Deus. Na República de Roma, até mesmo o imperador tinha que se submeter à vontade dos senadores.

Havia disputas políticas, traições e corrupção. Mas, a maioria de seus membros representava a dignidade dos cidadãos daquela época.

Ser senador era uma honra. Daí surgiu a palavra honorários, ou seja, o pagamento pelo trabalho realizado honradamente.

O Senado da República, em todas as épocas em que existiu foi sempre uma instituição respeitada e responsável pelo equilíbrio de poder dentro de qualquer governo. Nele estão os mais sábios, os mais sensatos e os mais experientes.

Mesmo aqui no Brasil, em passado não muito distante, tivemos personalidades memoráveis exercendo o mandato de senador. Homens públicos que recebiam seus honorários e trabalhavam pelos interesses da nação.

De repente, não se sabe exatamente por quais razões, o senado brasileiro virou um balcão de negócios.

Respeitando as exceções de sempre, e elas existem, nossos senadores se tornaram grandes conhecedores de genética bovina, especialistas em obras públicas, engenheiros de comunicação e mídia eletrônica.

A honra foi substituída pela ganância. A erudição e a ética foram trocadas pela safadeza.

A crise instalada dentro do Senado da República Federativa do Brasil é o retrato do caráter da maioria de nossos senadores. Uma imagem deprimente.

Aqueles que poderiam exercer a função política de guardiões de nossas instituições, que poderiam vetar atos do presidente, que poderiam censurar comportamentos dos magistrados, tornam-se figuras menores e desprovidas de qualquer autoridade moral.

Quanto vale um senador?

Uma pensão alimentar, uma bezerra desgarrada ou uma viagem ao exterior?

Na estabilidade comportamental de qualquer sociedade o exemplo tem que vir daqueles que a dirigem. Não há outra hipótese.

Ao observarmos o aumento da criminalidade e a completa subversão dos valores intrínsecos à atividade política, a mais digna das funções exercida pelos homens, deve-se perguntar se os responsáveis diretos não são nossos governantes, entre eles, nossos senadores.

Assim como o império romano ruiu por excesso de corrupção, falta de trabalho, enfraquecimento moral e crise de abastecimento, assim também, poderemos experimentar a falência total das instituições e a invasão dos bárbaros tal qual como aconteceu alguns séculos atrás.