quarta-feira, 19 de junho de 2019

Lord Bertrand Russel e a política Macunaíma









Lord Bertrand Russel e a política Macunaíma.

Marcos Bayer

Perguntado sobre que legado gostaria de deixar para seus sucessores, respondeu: Duas coisas. Uma de ordem Intelectual e outra de ordem moral. Intelectualmente, sugeriu: Quando estiverem estudando algum assunto perguntem a si quais são os fatos e o que eles revelam. Nada mais. Não se deixe arrastar para fora dos fatos.
O Congresso Nacional acaba de aprovar com pompa e circunstância um crédito de R$ 250 bilhões de reais para o governo Bolsonaro. Onde o governo vai buscar este dinheiro? No mercado, supõe-se. Qual será o prêmio para a captação e qual a taxa de juros para a remuneração?
Quem faz a operação? O BACEN diretamente ou através de corretoras de valores? Quem são os donos das corretoras?
A imprensa em geral, por descuido ou má fé, sequer analisa que mais três operações destas, em 2020, 2021 e 2022, somarão R$ 1 trilhão de reais.
A mesma quantia que o ministro Paulo Guedes quer poupar com a reforma da providência em 10 anos.
Afora isto, temos um comprometimento do Orçamento Nacional com a dívida pública muito interessante. O valor dela, para 2019, soma R$ 1,424 trilhão de reais. Sendo que o refinanciamento é da ordem de R$ 758,7 bilhões, amortização efetiva de R$ 287,3 bilhões e pagamento de juros no total de R$ 378,9 bilhões. Ou seja, os R$ 250 bilhões aprovados nesta semana não são suficientes nem para pagar os juros da dívida pública.
O PIB nacional, Produto Interno Bruto, a soma do que os brasileiros produzem no ano, está estimado em R$ 7,43 trilhões de reais.
Os números mostram: Produziremos 7,43 unidades monetárias e devemos 1,42 unidades monetárias. Devemos 20% do que produzimos.
No orçamento de 2018, executado e pago, gastamos 40,66% com a amortização e juros da dívida. E com a previdência social gastamos 24,48%.
Na agricultura, só para comparar, gastamos 0,61% do Orçamento Nacional.
É como alguém que ganha um salário de R$ 1.000,00 reais e gasta R$ 400,00 reais com dívidas. Isto é o povo brasileiro. E na classe média, quem ganhasse R$ 10 mil reais e gastasse R$ 4 mil com juros.
A segunda lição de Lord Russel, é: Love is wise and hate is foolish. O amor é sábio e o ódio é tolo. No mundo interconectado temos que aprender a tolerar uns aos outros.
Mas, a pergunta de devemos fazer é: Como conviver com uma classe política que governa para si e não para o povo?
Se com Juscelino Kubitschek – nosso JK – amigo de Oscar Niemeyer, Lúcio Costa, Tom Jobim, Vinicius de Morais, com um ministério de gala, com um plano de fazer 50 anos em 5, com Brasília e muito mais, já foi difícil, imaginem agora. Até os CIEPS do Brizola conseguiram sabotar.
Vocês verão na aprovação da reforma da previdência, mais um engodo nacional.
As corporações manterão seus “direitos” e o povo continuará pagando a conta. O Brasil não se constrói como nação, porque é mal educado, mal tratado e mal representado. Os que chegam lá no topo, corrompidos ou não, com raras exceções, trabalham para o país. O resto faz figuração...












terça-feira, 7 de maio de 2019

Carta aos filhos e aos netos e a seus filhos e netos...





Carta aos filhos e aos netos e a seus filhos e netos...

Marcos Bayer
E assim sucessivamente aos descendentes. Faz parte da natureza humana o ato do testamento. Seja sobre a coisa material ou imaterial.
O testamento é o ensinamento. Entre os animais é a alimentação, a lição da sobrevivência. Entre nós humanos perdura até a morte, a última cena como diz o artista.
Lord Acton, historiador inglês, em seu livro The History of Freedom, escreve:
A liberdade não é um meio para um fim político mais elevado; ela é em si mesma o mais elevado fim político.”
A liberdade faz parte de todo e qualquer processo de aprendizagem. Inclusive contestar o mestre. É assim que a humanidade evolui. Somos educados a dizer a verdade e a praticar o comportamento honesto. A ética humana passa por estas duas dimensões: verdade e honestidade. Sem elas é difícil construir sociedades de quaisquer naturezas: conjugal, comercial, religiosa, intelectual e ou política. Basta ver as dificuldades do Papa Francisco no Vaticano e na Igreja.
O poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente, escreveu também Lord Acton.
Salvo em raras situações e países, para crescer numa determina área é preciso corromper-se, deixar-se corromper ou fechar os olhos para a corrupção.
Os que estão no topo das hierarquias corrompem seus preferidos porque foram corrompidos, um dia, quando eram preferidos. É exatamente isto que faz aspergir a corrupção. Isto elimina os realmente bons, capazes e íntegros. E o discurso político dos corruptos é exatamente o combate à corrupção. É a forma mais fácil e eficiente de enganar.
Dito isto, recomendo aos interessados, o filme “The professor and the mad man”, com Mel Gibson, em cartaz como “O GÊNIO E O LOUCO”.
Primeiro, pela maneira fantástica de “construir” o mais completo dicionário da língua inglesa patrocinado pela Oxford University.
Segundo, pela maneira óbvia de como se separa titulação acadêmica de autodidatismo, e as reações da academia ao saber obtido na solidão do estudo individual.
Terceiro, pela loucura do psiquiatra em levar o paciente a uma loucura mais aguda, fazendo dele cobaia para suas teses. Ao ponto de achar que a indução ao vômito poderia fazer vomitar as neuroses da guerra vivida e outras tantas.
Quarto, pela maneira prática com que o jovem Churchill decide resolver o problema do louco.
Quinto, pela dignidade do guarda da clínica médica em relação ao paciente.
Sexto, pela capacidade de compreensão da viúva que se apaixona pelo louco. If love... Then love.
Sétimo, pela determinação da esposa do gênio ou professor que escora a obra de sua vida.
O filme, apesar da crueldade, nos faz acreditar no ser humano. Pelo menos em alguns deles, apesar de todos os imprevistos.

E aí, mais uma vez, Shakespeare, resume a imprevisibilidade da vida, em uma de suas obras clássicas, assim:
Horácio: Se o teu espírito rejeita alguma coisa, obedece-lhe; eu evitarei que venham para cá, dizendo que não estás disposto.”
   “Hamlet: De modo algum; nós desafiamos o agouro; há uma providência especial na queda de um pardal. Se tiver que ser agora, não está para vir; se não estiver para vir, será agora; e se não for agora, mesmo assim virá. O estar pronto é tudo: se ninguém conhece aquilo que aqui deixa, que importa deixá-lo um pouco antes? Seja o que for!”






sábado, 23 de março de 2019

O polvo





O polvo
Marcos Bayer

O polvo só morre quando lhe é cortada a cabeça ou todos os tentáculos. Possui ainda a capacidade de soltar uma tinta para despistar e fugir de seus predadores. Assim é o poder, também!
No Brasil de hoje estamos assistindo várias manobras encobrir o poder e conseqüentemente perpetuá-lo. O Supremo Tribunal Federal transfere para a Justiça Eleitoral crimes conexos ao chamado caixa dois, para que ela faça a análise e devolva à Justiça comum o que lhe couber. O ex-senador Lindenbergh Farias foi o primeiro beneficiado. Não temos mais notícias do Queiroz, aquele que multiplicava salários, como já se fez com os peixes e com o vinho. O presidente da Câmara dos Deputados desautoriza publicamente o ministro da Justiça, Sérgio Moro, chamando –o de funcionário do presidente, dizendo que o projeto anticrime elaborado recentemente em sua pasta será apêndice do projeto anterior de Alexandre Moraes, ex- ministro de mesma pasta. O presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, determina abertura de inquérito contra fato e pessoa desconhecidas. O presidente do Senado Federal diz que, neste momento, não dará prosseguimento ao pedido de impeachment proposto pelo advogado Modesto Carvalhosa contra Gilmar Mendes. Este, por sua vez, no plenário do STF, põe sob suspeição o Ministério Público Federal. O senador Kajuru denuncia Gilmar Mendes por venda de sentenças e este pede providência cabível ao presidente da suprema corte. Entre o presidente da República e seu vice existem atritos cada vez mais visíveis. O ministro da Educação parece sem rumo. Outros ministros estão na linha da destituição. Até agora sobrevive o ministro Paulo Guedes e toda sua equipe na área econômica. Assim mesmo, ao encaminhar a reforma previdenciária dos militares, teve que “aceitar” uma reestruturação na própria carreira militar.
O povo brasileiro, além dos logros a que é submetido diariamente, está divido em duas categorias até que consiga romper com a maior injustiça de todas. A existência de dois tipos de cidadãos: os de primeira e os de segunda categoria. E o que os separa são os salários públicos de R$ 40 mil reais.

quinta-feira, 14 de março de 2019

O ponto de ruptura







O ponto de ruptura
Marcos Bayer

Apenas uma contribuição ao debate sobre as duas dicotomias vividas recentemente. Primeiro a discussão PT x PSDB para saber quem havia sido mais corrupto, mais competente no governo e quem havia roubado mais.
Aí apareceram na cena o PMDB e o PP. As malas de dinheiro no apartamento em Salvador, a maleta de R$ 500 mil reais na pizzaria em São Paulo, as docas de Santos etc. e tal. Se o Juiz Moro era neutro ou favorecia alguém. Agora com a prisão de Paulo Preto/DERSA, deveremos conhecer os números do PSDB. E as confissões de Sergio Cabral mostrarão mais detalhes, atingindo talvez, a Igreja católica.
Depois veio a discussão Lula x Bolsonaro, PT x PSL, esquerda x direita e a peregrinação à Curitiba, para visitar a sede da Polícia Federal.
Abriu-se a campanha presidencial de 2018, com Haddad, Alckmin, Ciro, Meirelles, Marina, Boulos e Bolsonaro. A diferença do primeiro para o segundo lugar foi de aproximadamente 10%. Sendo 55,13% para Bolsonaro e 44,87% para Haddad.
Em Santa Catarina a diferença foi maior. Acachapante. Moisés do PSL derrotou Merísio do PSD/PP por 71,09% a 28,91% dos votos.
O PSD perdeu. Já não se pode dizer o mesmo do PP que elegeu o senador que estava na chapa. Mas foram enterrados nomes do PMDB, PSDB, PT, PP e PDT. Alguns para sempre.
Houve uma ruptura no processo político. As pessoas acordaram. Deram um basta a todas as formas de “roubo” e ou enganação. A cibernética ajudou e muito. A classe política perdeu o respeito pelo que fez ou deixou de fazer de uns tempos para cá... Talvez de Sarney (1986) para cá. Exceto com Itamar Franco que passou incólume.
Em ambos os casos, os vitoriosos carregavam uma mensagem de renovação, combate à corrupção e da “nova” política.
Bolsonaro tinha um economista, Paulo Guedes, que servia de bússola para o futuro governo. Moisés não tinha nenhuma referência. Era um coronel reformado da PM e assessor de um vereador em Tubarão, Lucas Esmeraldino, também desconhecido no meio político.
Venceram e agora começam a trabalhar. Bolsonaro inicia com a reforma previdenciária. O ministro Sérgio Moro parece que não conseguirá fazer prevalecer suas propostas de segurança, já “fatiadas”, por pressão dos parlamentares. O governo perdeu a votação com a lei do sigilo. Foi sua primeira derrota. O Queiroz não apareceu e o senador Flávio Bolsonaro está quieto. Mas, segue o barco, como diz o general Hamilton Mourão.
Aqui em Santa Catarina, o governador corta o cafezinho, transfere R$ 100 milhões em crédito suplementar para a Secretaria de Infraestrutura, sendo que R$ 31 milhões serão gastos na recuperação das duas pontes de concreto. Moisés alerta que poderá atrasar o pagamento da folha num futuro próximo. E descobre a compra da espada de R$ 14 mil reais. Vai tentar cancelar a licitação.
Estes dois governos, Bolsonaro e Moisés, só criarão identidade positiva com realizações. O PSL não é uma escola, nem tem união. Dificilmente farão seus sucessores, pois não sabem fazer política.
Para salvarem suas administrações, terão que ser absolutamente honestos e parecerem honestos. O que não é mais do que obrigação na vida pública. O ponto de ruptura já aconteceu e foi muito bom para Santa Catarina e para o Brasil. Militares são acostumados a cumprir ordens. De um lado é bom porque são obedientes aos princípios da verdade e da honestidade. Mas, só isto não será suficiente para elegerem seus sucessores. E quem está acostumado a obedecer, quase não cria. Assim como também não tem muita iniciativa.

Duas notas




Duas notas
Marcos Bayer

A primeira diz respeito aos descendentes de italianos que vivem em Santa Catarina, terra de Anita Garibaldi. Na colonização do Estado, a parcela de filhos da Itália chegou aos 42% da formação étnica dos catarinenses. Altair Magagnin, colunista do ND on line, informa que mesmo com o descaso do governo recém-empossado, o movimento para instalar um consulado italiano em SC continua. Diz ele que comandante Moisés travou o processo, mesmo com a cessão de um espaço no Centro Administrativo ofertado por Eduardo Pinho Moreira.
Esperidião Amin, senador da República, filho de mãe italiana, Marini, membro da comissão de relações exteriores, poderia abraçar a causa. Afinal, a base da agroindústria local, desde o pequeno produtor até o industrial, tem origem na Itália. Os Fontana e a Sadia, os Brandalise e os Ponzoni na Perdigão, os Paludo da Seara, os Bodanese e a Cooperativa Aurora, os De Nês, os Menestrina dos queijos e os habitantes de Laurentino. No oeste catarinense, os italianos construíram a riqueza e nela implantaram sua cultura, além de outros nichos como Nova Trento, Urussanga, Nova Veneza e Ascurra. Certo Rubim?

A segunda diz respeito ao brilhante Paulo Guedes, uma das cabeças privilegiadas deste país e que segura, por enquanto, o governo Bolsonaro.
Admito que o Brasil precise de uma experiência econômica liberal, sobretudo para simplificar procedimentos burocráticos, acabar com o favorecimento bancário aos amigos da corte e com os juros galácticos que pagamos à banca. Nós cidadãos e o governo, nesta sangria interminável que dá cor ao Mar dos Judeus.
Mas, o Dr. Paulo Guedes em suas palestras fala do sacrilégio cometido pela Humanidade ao experimentar o socialismo. E fala de quantos morreram em razão da experiência. Para não alongar, pior do que o sacrilégio referido pelo economista liberal foi a promessa de Calvino que retirou dos cristãos a necessidade de obedecer integralmente às Escrituras, facilitando a licitude da usura. E deu no que deu...
E em nome da riqueza, do dinheiro e dos juros, o mundo está como está. Aqui no Brasil estamos com vinte milhões de desempregados que não podem empreender por causa do preço do dinheiro.
Mas, isto não tira o brilho do ministro que tem uma árdua tarefa pela frente.